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Por que a música de Chrono Trigger continua cativante?
17 de outubro de 2017

Poucas vezes o Instituto de Artes da Unesp viu seus corredores tão apinhados de gente quanto naquele cair de tarde em agosto de 2015. A fila, que partia das portas do teatro, dava uma volta em todo o primeiro andar do prédio e descia por uma extensa rampa, indo parar nas calçadas do bairro da Barra Funda. Abaixo de vários rostos ansiosos, camisetas estampadas com ícones do difuso fenômeno da cultura nerd. Era a primeira vez que o campus recebia um programa dedicado ao repertório musical de um videogame.

O concerto, organizado por alunos dos cursos de música, celebrava os 20 anos de lançamento de Chrono Trigger (1995). Executadas por um ensemble, as peças de Yasunori Mitsuda chegaram aos ouvidos das mais de 1000 pessoas presentes, o que suscita a questão: por que essa trilha musical continua relevante mesmo depois de tanto tempo?

O argumento mais lógico salta à boca de prontidão. O game é, possivelmente, o título mais celebrado da fase mais fecunda da SquareSoft — que ainda viria a produzir outros petardos, tais como Super Mario RPG (1996) e Vagrant Story (2000). Com seu inventivo sistema de batalhas, desenvolvimento aprofundado de personagens e múltiplos finais, Trigger foi relançado para PlayStation, DS, Android e iOS, chegando às gerações mais novas por meio destas plataformas.

Atentemos ao fato de que tais elementos, como mecânicas de vanguarda e complexos arcos narrativos, comunicam-se entre si e com as outras partes componentes da obra. Não são unidades a serem analisadas estrita e isoladamente. Nesse sentido, a música de Chrono Trigger estabelece relações íntimas e interessantes que potencializam sua função dentro do game.

O primeiro ponto que salta aos ouvidos é o emprego dos Leitmotiven: breves ideias musicais ligadas a algo ou a alguém que compõe o universo do título. A técnica, popularizada pelo compositor romântico Richard Wagner (1813-1883) e que viria a ser utilizada posteriormente por músicos no cinema, desempenha papel essencial na condução da narrativa de Chrono Trigger, dando cor a suas personagens e conferindo maior unidade musical ao conjunto da obra.

Embora a recorrência de temas possa ser encontrada em jogos precedentes, como no excepcional trabalho de Koji Kondo em Super Mario World (1990), é sob a batuta do então novato Mitsuda que a técnica será utilizada com maior refinamento, servindo como base para muitos trabalhos futuros. Em entrevista concedida em 2008 para o site Original Sound Version, o próprio compositor dá mais detalhes sobre esse aspecto de seu trabalho:

Quando eu compus a trilha original de Chrono Trigger, os principais RPGs japoneses eram Final Fantasy e Dragon Quest, e ambas as séries eram repletas de diferentes músicas para cada fase. Analisando como um jogador, eu sempre achei que não havia consistência na música, e eu quis usar o tema principal de Chrono Trigger o quanto fosse possível, como o fazem nos filmes. Como resultado disso, eu comecei a trabalhar com diferentes andamentos e arranjos.

A recorrência do tema principal do game é evidente. Escute a peça e compare-a com Memories of Green, executada na floresta de Guardia, e perceba como ambas composições compartilham da mesma melodia. Mitsuda levaria adiante esse reaproveitamento em Chrono Cross (1999), onde o motivo musical surge arranjado como um inusitado reggae em Chronomantique.

Contudo, como já mencionamos tangencialmente antes, o emprego do Leitmotiv não se restringe à abertura do jogo, tampouco o é somente um artifício para evitar o cansaço auditivo do jogador. A técnica nos ajuda a identificar os agentes principais da narrativa em cada um de seus momentos, assim como nos dá dicas sobre o estado de cada um desses de acordo com o arranjo musical. Ouçamos, por exemplo, o tema de Frog. Seu caráter marcial nos leva a pensar em um guerreiro de destreza imensa, mesmo que sua forma amaldiçoada de anuro não contribua à demonstração dessa força.

Outra faceta destoante no trabalho de Mitsuda é seu próprio fazer musical. Quando comparada à de seus contemporâneos, como Nobuo Uematsu e Koichi Sugiyama, nota-se que sua poética traz consigo raízes muito particulares. Além da influência do rock progressivo e da música clássica, comum ao trabalho dos compositores mencionados, Mitsuda traz à tona em sua obra uma pesquisa extensa e variada sobre a música tradicional de diferentes lugares. Seu fascínio pela música irlandesa, por exemplo, é perceptível no tema da Millennial Fair e, mais tarde, ficaria evidente nas trilhas de Chrono Cross e Xenogears (1998).

O que mais chama a atenção, no entanto, é como estes elementos se fundem com outros que, na superfície, aparentam disparidade. Seu pensamento harmônico, que remete a compositores do impressionismo, tais como Debussy e Ravel, cabe como uma luva nos momentos de incerteza e mistério do jogo. Uma análise extremamente competente sobre esse assunto pode ser acessada no canal 8-bit Music Theory.

Essa série de fatores expostos acima formou a conjuntura ideal para que a trilha musical de Chrono Trigger fosse arranjada e executada das mais diferentes formas, rendendo cinco discos oficiais: alguns destes, de excelente gosto, como The Brink of Time, álbum produzido pelo próprio compositor que reinventa a música do game à moda do acid jazz — estilo popularizado pelo grupo Jamiroquai. Atente ao inventivo solo de trompete com delay da primeira faixa, um deleite.

Outras produções desse cunho, no entanto, fazem o brilho da composição original esmorecer. O último álbum de Mitsuda, To Far Away Times, é um exemplo. Arranjado por diferentes compositores, o disco não conta com uma unidade musical discernível e recorre a alguns artifícios questionáveis, como a transformação de peças instrumentais em canções — onde a complexa linha melódica prejudica a prosódia do texto cantado.

Além de seus arranjos e orquestrações originais, a trilha musical de Chrono Trigger foi alvo de covers e versões diversas no YouTube, outro fator extremamente relevante à discussão. Em tempos da difusão da informação em rede e do video-on-demand, é natural que o contato das camadas mais jovens da sociedade com essas composições se dê nesses meios. Artistas que já contribuíram dessa forma incluem o sempre interessante Smooth McGroove e o jovem multi-instrumentista insaneintherainmusic. Mesmo este, que vos escreve, ousou homenagear o consagrado compositor japonês.

Curiosamente, mesmo que todos esses fatores tenham ajudado Yasunori Mitsuda a ser aclamado pela crítica e público, sua carreira a partir dos anos 2000 foi dedicada a projetos de menor difusão. Após assinar as trilhas de hits como Chrono Cross e Xenoblade, o músico participou de games em conjunto com outros autores, assim como teve seu trabalho identificado com a franquia Inazuma Eleven. Felizmente, este ano, suas peças devem voltar a preencher os ouvidos de um público maior com Xenoblade Chronicles 2, que será lançado para o Switch.

Analisar o trajeto da música de Chrono Trigger nos ajuda não somente a entender sua relevância, como traça caminhos para compreendermos como as obras musicais podem se perpetuar na presente era digital. Vida longa ao mestre Yasunori Mitsuda.

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Comentários

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[…] (Texto publicado no Neo Fusion, em 14/01/2021, disponível no link: http://54.237.89.239/materia/analise/tell-me-why/) […]

[…] a alternativa não é descartada. Até mesmo tivemos uma história inédita do marsupial em Crash Bandicoot 4: It’s About Time. Poderíamos ter uma nova versão futuramente de Crash Bash – o party game da franquia […]

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Breath of the Wild carater família?

wishlistei

Você sabe me falar se compensa eu comprar esse ou posso jogar o original também, eu tenho o original mas não. Joguei nenhum você pode me ajudar nessa Dúvida de 259 reais kkkk

Incluindo a fonte de meu comentário.: http://www.vgchartz.com/gamedb/games.php?name=just+dance+2018&keyword=&console=&region=All&developer=&publisher=&goty_year=&genre=&boxart=Both&banner=Both&ownership=Both&results=50&order=Sales&showtotalsales=0&showtotalsales=1&showpublisher=0&showpublisher=1&showvgchartzscore=0&showvgchartzscore=1&shownasales=0&showdeveloper=0&showcriticscore=0&showcriticscore=1&showpalsales=0&showreleasedate=0&showreleasedate=1&showuserscore=0&showuserscore=1&showjapansales=0&showlastupdate=0&showlastupdate=1&showothersales=0

O que mais impressiona é que a versão mais vendida deste jogo foi a do Nintendo Switch, seguida da fucking versão de Wii! TEM GENTE COMPRANDO JUSTA DANCE PRA WII EM 218! E vendeu bem mais que no One... Dificilmente um JD 2019 vai ficar de fora do velho de guerra da Nintendo!

<3

Este jogo é fantástico! Muito bom evoluir todos os personagens. Os personagens da 2ª geração ficam ainda mais fortes. Celice, filho de Sigurd, torna-se quase um Deus, o deixei com 80 de HP, o máximo, como outros status que ficaram no seu máximo, mais os itens: Silver Sword, Silver Blade, Power Ring, Speed Ring, Defence Ring, deixando o Celice muito forte e resistente.

Obrigado! Sobre suas dúvidas: 1) Eu não consegui confirmação concreta de quem é o CEO atual da Game Freak. O pouco que descobri apontava para o Satoshi, mas é possível que ele já tenha saído sim. 2) O texto foi escrito em dezembro, antes do anúncio de Bayonetta 3. Como a ideia é lançar um listão assim a cada seis meses, acho que não vale o trabalho ficar atualizando a cada anúncio. Mas se houver demanda, posso fazer.

Belo compendium dos estúdios da Nintendo e afiliados! Só tenho duas dúvidas: 1- O Satoshi ainda é CEO da Game Freak? Pensei que ele já tinha se afastado. 2- A Platinum não está fazendo Bayonetta 3 agora?

Que bacana, o jogo parece bem legal. Só não compro porque larguei rápido o último jogo do tipo que peguei (Animal Crossing: New Leaf)

O Zelda mais zeldoso de todos

Esse é jogo é O Zelda?

Valeu :)

Realmente é algo incrível, parece até informação secreta kkkkkkk, ótimo post.

Analise justíssima, parabéns Renan! Na minha opinião, por mais que Pocket Camp seja inegávelmente a experiência mobile da Nintendo mais próxima que tivemos da “versão console”, é desnecessariamente repetitivo, incompleto e enjoativo. Além do gameplay lento (como citado na análise), não existem grandes recompensas pela progressão no jogo além de novos personagens e móveis pra construir. No fim, Pocket Camp é apenas (o pior de) New Leaf adaptado para smartphones, com 10% das funcionalidades e mecânicas free-to-play. Talvez uma atualização dê alguma tapeada na repetitividade excessiva, mas teriam que mudar tanto o jogo que nem sei se vale a pena.

Não joguei esse Zelda ainda, por isso não posso fazer comentários sobre o jogo mas sei que a Nintendo sempre capricha nos seus jogos e usa artificios muito elaborados até para as coisas mais simples, certa vez na internet achei um vídeo relacionando o construtivismo de Vygotsky com o jogo super Mario...por fim estou gostando dessa abordagem mais técnica dos jogos, sai um pouco do padrão da internet

É um openworld, no dois vc começa adolescente e vai envelhecendo, as cicatrizes permanecem, vc pode comprar casa e casar nas diferentes cidades... no terceiro muda mas as decisões são fodas, por exemplo vc procura apoio da população de uma vila pra dar o golpe no seu irmão, então vc promete uma ponte pra cidade, depois do golpe vc tem escolher entre construir a ponte e aumentar o exército da sua nação contra o inimigo do jogo ..daí sua escolha muda tudo

Eu ouvi muito de Fable na época pré-lançamento dele, mas não cheguei a jogar. Tinham muitas promessas nesse sentido mesmo, que você ia passar anos na pele do mesmo aventureiro. Ele chega a ser um openworld? E as escolhas geravam caminhos e quests diferentes?

Um jogo bem interessante mas que muita gente não gosta é Fable, vc ter uma vida, fazer escolhas que vão afetar a história é bem interessante, seria bem legal se em Zelda você pudesse desenvolver uma cidade e se tornar herói/prefeito

Rapaz, que texto. A crítica que você fez à premiação do Uncharted bate no ponto certo. As narrativas mais envolventes do universo dos games, pra mim, foram aquelas que exploraram todo o potencial de interatividade que a mídia propõe. Nada contra Uncharted e eu acho que o jogo é brilhante em vários outros aspectos, mas os exemplos citados no texto falam por si só. Enfim, gostei muito. E o site tá lindo, isso aqui é qualidade pura.

Excelente lista! O Switch é uma awesome little indie machine :)

Faltam 2 horas e estou que nem criança imaginando minha reação se eu ganhar.

Olha... excelente texto. Esse é um problema que eu já vinha discutindo em meus círculos de amizade ha um bom tempo. Isso fica ainda mais evidente quando percebe-se a necessidade das grandes publishers de seguirem tendencias mais lucrativas não afetam apenas o game design em si, mas também as temáticas, narrativas, e até mesmo a direção de arte dos games. Vide a enxurrada de jogos de zumbis que tivemos na geração passada... Por falar em indies, eu vejo muito potencial para que os próximos AAA inovadores saiam deles. O orçamento ainda é um problema, mas financiamento coletivo já é uma realidade. Acredito que equipes extremamente competentes e comprometidas consigam levantar fundos para levar adiante o desenvolvimento de jogos desse nível.

O sorteio vai ser ao vivo via live???

Obrigado Igor! Seja bem-vindo ao Nintendo Fusion :)

Rapaz, que texto foda! Parabéns Renan! Fico cada mais feliz em ser Nintendista em tempos como esse (apesar de ainda não ter um Switch), saber que a Nintendo rema pesado contra essa maré cheia de lixo. Recentemente o designer da BioWare, Manveer Heir (Mass Effect) compartilhou que a EA só tem foco mesmo nas microtransações, que ainda viu gente gastando 15 mil dolares com cards de multiplayer do Mass Effect 3. Pra piorar agora tem o sistema de Loot Box, que está na moda, e a Warner empolgou com o Shadow of Mordor. Loot Box pra fechar campanha ou pra tentar competir online nos jogos, pra mim isso é praticamente o fim. A única esperança que tenho nessa industria que amo tanto são mesmo nos indies, Nintendo e algumas empresas. Espero que a Activision não estrague a Blizzard, pq apesar de Overwatch ter Loot Box, são completamente cosméticos, e eu acho isso bom até, pq jogar pra desbloquear coisas visuais é muito mais interessante e prazeroso que jogar pra tentar a sorte com um item específico pra ser mais competitivo com upgrades no status do personagem.

Não aparece para você no começo do texto? https://uploads.disquscdn.com/images/b809b035a7e4e21875dfe6af44cc2d10dccbe7c3eea556e1be57fe8018d72a32.png

cadê o tal formulário do Gleam? não vi link nenhum no texto... tá mal explicado isso...

Das publicadoras de games, a EA é sem duvidas a pior. Não foi atoa que foi escolhida como a pior empresa americana por dois anos consecutivos. Não quero parecer um hater, mas é essa filosofia de shooters multimilionários, com gráficos de ponta e extorquimento de dinheiro dos consumidores é que vai fazê-los fechar as portas. Isso fica evidente com o “apoio” da empresa ao Switch, não souberam mais uma vez ler o sucesso do console, e repetem os mesmos erros de uma década: investir pesado em gêneros supersaturados. E é interessante notar como o Iwata foi capaz de enxergar uma realidade mais de uma década á sua frente, e feliz que cada vez mais empresas adotam essa estratégia: jogos de menor orçamento e maior foco no público

Agora sim vou ter meu switch o/

Sim!

Qual é a exceção "imperdoável"? Chrono Trigger?

Reativei minha conta só pra promoção kkkk

Cara, não uso Twitter. Até tenho, mas nem lembro senha nem nada. Vamos ver se tenho sorte

Parabéns à todos nessa nova empreitada, o site é promissor!

Acho que o único defeito desse game foi ter requentado muitas fases, poderia ter sido apenas a GHZ, por exemplo. Mas fora isso é impecável.

sera que agora ganho o

Precisa compartilhar no Facebook. Nos outros lugares é opcional.

Eu preciso compartilhar o sorteio pelo facebook? Ou é preciso compartilhar em outro lugar?

Felipe Sagrado escreva-se em tudo para aumenta a change brother!!!!

Você pode participar sim, só não vai poder obter os dois cupons relacionados ao Twitter. :)

Boa tarde. Eu não uso o Twitter, então gostaria de saber se isso impede minha participação ou só diminui minhas chances?

? vou seguir o Renan aqui tbm