Se você cresceu com computadores em sua casa ou de relativo fácil acesso, já deve ter se pego em uma situação de monotonia – olhando pra tela do computador e mexendo o cursor do mouse ao redor da tela, quase como se criasse um pequeno caminho para o cursor atravessar – como se o mouse fosse um pequeno personagem e você estivesse atravessando uma fase ao redor da sua tela. Provavelmente você não pensou tão longe assim, e talvez isso seja apenas um reflexo da minha imaginação, mas já me peguei fazendo coisas assim enquanto esperava, principalmente quando era criança.
Mas até minha forma criança não imaginou que teríamos algo como MainFrames: Um jogo de plataforma explorando o universo dentro dos computadores enquanto você guia um pequeno personagem atravessando a tela do seu computador enquanto interage com os ícones e janelas. Sendo o universo da tecnologia e computação algo complexo cheio de mínimos detalhes fascinantes, temos uma gama de possibilidades criativas para interpretar isso na forma de um jogo, e creio que MainFrames seja um exemplo que esbanja criatividade e charme. Deixe-me explicar por que em algumas linhas no texto a seguir.
Desenvolvido pelo estúdio Assoupi, MainFrames é um jogo de plataforma de precisão 2D que ze passa em um mainframe (daí o nome) de um computador. Você controla um pequeno disquete chamado Disquete (ou Floppy, de “Floppy Disk” – o termo em inglês pra Disquete) no espaço de um disquete inserido em um computador – espaço representado literamente por um pequeno quarto. Após o que parece ser um erro ou assimilação, você cai no sistema principal do computador e é recebido por um pinguim que te diz que algo deu errado – você entrou pelo caminho errado. Enquanto você a segue para seu escritório, não é difícil perceber que as coisas no sistema estão um pouco estranhas: Bugs pixelizados vermelhos estão presentes em muitas telas dos menus e várias pequenas criaturas (chamadas Daemons) estão espalhados, é como se aquele sistema estivesse instável – e pouco a pouco você conhece mais personagens pitorescos, e busca uma explicação para o que aconteceu a você e o que está acontecendo com o mundo a sua volta.
Esse breve resumo essencialmente conta a premissa do jogo, sem maiores spoilers, e enquanto os diálogos parecem um tanto disconexos em alguns momentos, a narrativa de MainFrames é elegantemente contada por pequenos fragmentos visuais que você pode encontrar enquanto explora, e cabe a você juntar as peças do que pode estar acontecendo, chegando a ver até pequenos logs de conversas entre os criadores do sistema onde você está. Para não entrar em spoilers, posso dizer que senti que o fim chegou um tanto abruptamente, mas gostei do sentimento de desvendar um mistério através da exploração – algo que similarmente senti em Europa, por exemplo – e creio que mesmo que você não esteja perfeitamente a par de terminologias de computação, você ainda consegue compreender o que está acontecendo, só talvez perca algumas “sacadas” visuais do jogo.
A apresentação visual do jogo é um dos pontos que mais brilha: Você está literalmente passeando por várias telas de um computador, como se estivesse pulando de aba para aba de diferentes tarefas ou várias áreas de trabalho, e as plataformas são compostas de diferentes janelas abertas nessa área de trabalho – e pulando de janela em janela até chegar às transições de uma tela à outra você progride pelo jogo. O design de personagem dos Daemons, NPCs e do próprio Disquete são muito bem animados e charmosos, mesmo se atendo a pequenas formas de alguns poucos pixels.
A música do jogo é bem serena com um toque de aventura (se é que isso faz sentido), e a instrumentação me lembrou um pouco a trilha sonora de Fez – algo um tanto relaxado e variado com algumas notas bem distantes, quase nostálgicas, complementando o visual pixelizado de antigos computadores. A cereja do bolo da apresentação são os reflexos e marcas de dedo na tela, levemente perceptíveis em cantos escuros – dando ainda mais a impressão que você está olhando para uma tela de um monitor “de tubo”.
Em cada uma das telas do sistema operacional, uma série de janelas compõem o seu caminho, como dito antes, e cada uma delas vai representando diferentes plataformas. Começam como janelas com apenas um chão ou uma parede básica, mas pouco a pouco novas mecânicas são introduzidas: Janelas com paredes “bugadas” (representadas por sua cor vermelha) que você não pode encostar, janelas que alteram a gravidade para os lados ou para cima, janelas “clicáveis” que pedem que você selecione dentre várias janelas disponíveis, janelas que precisam ser movidas para criar o seu caminho, ícones para lançar você para cima – a lista é razoavelmente grande. Tudo isso traz desafios bem variados ao jogo, mantendo o fluxo bem ativo e gostoso de jogar, o que é especialmente admirável dado que você só tem dois movimentos a qualquer momento – Pular e dar um giro no ar (que nem na saga New Super Mario Bros). As mecânicas do jogo giram em torno desses dois movimentos, e com apenas um botão de pulo, alguns cliques dos gatilhos e movimento do analógico direito, você consegue se virar bem.
Cada tela é um desafio, e por conta disso os desafios em geral não tomam muito do seu tempo, e por mais que você morra bastante – o que com certeza vai acontecer – não me senti muito frustrado com MainFrames. O jogo segue bem rápido e enquanto a dificuldade começa a subir mais para o final dos oito setores do sistema operacional, a duração do jogo não é muito esticada, durando em torno de 2 a 4 horas, dependendo do quanto você resolve explorar. Em vários casos, você vai encontrar “bifurcações” nos caminhos, e enquanto alguns caminhos podem levar simplesmente a maneiras diferentes de progredir pela fase, outros vão levar a alguns Daemons perdidos. Estes são comparáveis aos colecionáveis do jogo, e de certa forma comparáveis aos morangos de Celeste: Pequenos desafios extras que põem suas habilidades à prova, mas possivelmente com algumas mecânicas próprias, como Daemons que se mexem em uma linha específica e outros que precisam ser guiados quase como um jogo de Pong. Não são obrigatórios, mas são bem divertidos de se fazer!
Aproveitando a comparação com Celeste, se você já jogou jogos de plataforma 2D bem precisos e desafiadores como aquele jogo ou Super Meat Boy, sinto que MainFrames é uma ótima pedida, já que segue uma estrutura relativamente similar – um jogo simples, direto ao ponto, fácil de controlar que vai pondo mais camadas de mecânicas e as mesclando para trazer um jogo bem desafiador onde você morre bastante, mas que cada morte não te faz perder muito progresso, então é bem mais fácil de suportar essas mortes.
É importante dizer que MainFrames não chega ao nível de dificuldade que esses dois exemplos chegam, então se você quiser algo mais doloroso do que a fatura do cartão no fim do mês, pode ser que MainFrames não seja exatamente o que você espera, mas ainda creio que seus desafios sejam bem criativos e que vão pedir bastante de você: Se não em habilidade, em criatividade, já que alguns deles podem ser (como demonstrado em um dos primeiros desafios) quase 100% pulados, se você souber (literalmente) dar os seus pulos. Por fim, se você estiver se frustrando muito com um desafio, nada te impede de ligar algumas coisas no modo de assistência, como pulos infinitos ou invincibilidade – a escolha é sua.
Comentei que MainFrames é bem justo com relação a sua dificuldade, mesmo que ela seja mais alta do que o comum, mas isso não impede que o jogo tenha alguns pontos francamente irritantes. Durante sua trajetória, você vai encontrar algumas telas com desafios de resistência, coisas como “quanto tempo você consegue pular entre essas duas plataformas sem tocar o chão” ou “quantos pulos você consegue dar nesse ícone sem encostar no bug acima dele” – pequenos minigames ao estilo arcade que estão lá puramente por diversão e se você curtir esse tipo de coisa. Eles não são obrigatórios, com exceção de um no meio do jogo que te põe em uma perspectiva semi-3D enquanto você tenta sobreviver da plataforma sem cair, e esse minigame por si só foi provavelmente o momento mais frustrante do jogo, tudo porque ele é obrigatório para sua progressão e, para piorar, não possui um único checkpoint, categorizando a única exceção ao fluxo bem estruturado e fácil de digerir do resto do jogo. É um pulo de dificuldade bem grande, e esses pulos infelizmente acontecem em algumas ocasiões, que felizmente são poucas, mas quando acontecem são bem irritantes.
Por fim, infelizmente o jogo não é sem os seus bugs (não intencionais, que não são os obstáculos do jogo) e alguns momentos de confusão. Tentei mudar a configuração dos comandos para que usasse o botão A em vez de B para pular, e toda vez que reiniciei o jogo o comando voltava para B, e isso deixava o jogo confuso em qual botão ele queria que eu apertasse em algumas seções. A detecção de “hurtboxes” (zonas onde você morre se encostar, como as barras de bug vermelhas) e de algumas telas foi um tanto instável: Para transicionar de uma tela à outra, você precisa passar por uma parte específica da tela, simbolizada por uma espécie de “portal pixelizado” – passar por qualquer outra parte da tela vai contar como uma morte – e algumas vezes ao passar por esse portal, o jogo contou como se eu tivesse morrido, e a área de ação das plataformas que mudam a gravidade foi bem instável – em algumas vezes era em qualquer ponto da caixa e em outros era especificamente no meio, o que me causou uma boa quantidade de mortes. Por sorte, se você morrer ao encostar na janela próxima à saída de uma das telas, você vai renascer diretamente naquela janela, ao lado da saída.
Ao fim da minha jornada de cerca de 3 horas de MainFrames, consegui cerca de 94% do total do jogo, e me diverti bastante nesse pequeno tempo. Como um fã de jogos de plataforma e um defensor de que nem todo jogo precisa ter 50 quatrilhões de horas, vejo em MainFrames um jogo desafiador e cheio de charme que foi muito bem feito e que acerta em cheio em seu estilo visual, e apesar de alguns momentos ruins o fluxo se manteve bem fluido e não notei o tempo passar enquanto jogava. O tom nostálgico e de descobrimento do jogo são perfeitamente acalentados pela música serena e, apesar de sentir que o fim foi um pouco abrupto, sinto que fiquei bastante interessado no universo de MainFrames e aonde sua narrativa estava indo. Talvez não seja tão difícil quanto aquele C-Side de Celeste, mas creio que MainFrames merece ficar lado a lado de um clássico recente como este, e merece ser jogado se você curte jogos de plataforma 2D e gosta de um bom desafio justo.
Comentários
Olha... excelente texto. Esse é um problema que eu já vinha discutindo em meus círculos de amizade ha um bom tempo. Isso fica ainda mais evidente quando percebe-se a necessidade das grandes publishers de seguirem tendencias mais lucrativas não afetam apenas o game design em si, mas também as temáticas, narrativas, e até mesmo a direção de arte dos games. Vide a enxurrada de jogos de zumbis que tivemos na geração passada... Por falar em indies, eu vejo muito potencial para que os próximos AAA inovadores saiam deles. O orçamento ainda é um problema, mas financiamento coletivo já é uma realidade. Acredito que equipes extremamente competentes e comprometidas consigam levantar fundos para levar adiante o desenvolvimento de jogos desse nível.
O sorteio vai ser ao vivo via live???
Obrigado Igor! Seja bem-vindo ao Nintendo Fusion :)
Rapaz, que texto foda! Parabéns Renan! Fico cada mais feliz em ser Nintendista em tempos como esse (apesar de ainda não ter um Switch), saber que a Nintendo rema pesado contra essa maré cheia de lixo. Recentemente o designer da BioWare, Manveer Heir (Mass Effect) compartilhou que a EA só tem foco mesmo nas microtransações, que ainda viu gente gastando 15 mil dolares com cards de multiplayer do Mass Effect 3. Pra piorar agora tem o sistema de Loot Box, que está na moda, e a Warner empolgou com o Shadow of Mordor. Loot Box pra fechar campanha ou pra tentar competir online nos jogos, pra mim isso é praticamente o fim. A única esperança que tenho nessa industria que amo tanto são mesmo nos indies, Nintendo e algumas empresas. Espero que a Activision não estrague a Blizzard, pq apesar de Overwatch ter Loot Box, são completamente cosméticos, e eu acho isso bom até, pq jogar pra desbloquear coisas visuais é muito mais interessante e prazeroso que jogar pra tentar a sorte com um item específico pra ser mais competitivo com upgrades no status do personagem.
Não aparece para você no começo do texto? https://uploads.disquscdn.com/images/b809b035a7e4e21875dfe6af44cc2d10dccbe7c3eea556e1be57fe8018d72a32.png
cadê o tal formulário do Gleam? não vi link nenhum no texto... tá mal explicado isso...
Das publicadoras de games, a EA é sem duvidas a pior. Não foi atoa que foi escolhida como a pior empresa americana por dois anos consecutivos. Não quero parecer um hater, mas é essa filosofia de shooters multimilionários, com gráficos de ponta e extorquimento de dinheiro dos consumidores é que vai fazê-los fechar as portas. Isso fica evidente com o “apoio” da empresa ao Switch, não souberam mais uma vez ler o sucesso do console, e repetem os mesmos erros de uma década: investir pesado em gêneros supersaturados. E é interessante notar como o Iwata foi capaz de enxergar uma realidade mais de uma década á sua frente, e feliz que cada vez mais empresas adotam essa estratégia: jogos de menor orçamento e maior foco no público
Agora sim vou ter meu switch o/
Sim!
Qual é a exceção "imperdoável"? Chrono Trigger?
Reativei minha conta só pra promoção kkkk
Cara, não uso Twitter. Até tenho, mas nem lembro senha nem nada. Vamos ver se tenho sorte
Parabéns à todos nessa nova empreitada, o site é promissor!
Acho que o único defeito desse game foi ter requentado muitas fases, poderia ter sido apenas a GHZ, por exemplo. Mas fora isso é impecável.
sera que agora ganho o
Precisa compartilhar no Facebook. Nos outros lugares é opcional.
Eu preciso compartilhar o sorteio pelo facebook? Ou é preciso compartilhar em outro lugar?
Felipe Sagrado escreva-se em tudo para aumenta a change brother!!!!
Você pode participar sim, só não vai poder obter os dois cupons relacionados ao Twitter. :)
Boa tarde. Eu não uso o Twitter, então gostaria de saber se isso impede minha participação ou só diminui minhas chances?
? vou seguir o Renan aqui tbm