Análise: The Dark Pictures: Little Hope - Neo Fusion
Análise
The Dark Pictures:
Little Hope
10 de novembro de 2020
Cópia digital da versão para Xbox One cedida pela Bandai Namco.

Apesar de ser uma mídia interativa, poucos videogames oferecem ao jogador um verdadeiro senso de decisão. Na vasta maioria dos jogos, há uma narrativa pré-estabelecida, como em um livro ou filme, e a única interatividade é superar os desafios propostos. Ou seja, a única escolha que temos é a de não jogar.

Claro que nem todo jogo é assim. Em 2012, um pequeno estúdio chamado Telltale Games lançou uma adaptação de The Walking Dead. Tratava-se de um jogo de aventura, um gênero que não recebia atenção há anos, dividido em cinco capítulos e no qual cada escolha do jogador pode ter consequências graves para a narrativa. O jogo foi altamente prestigiado, recebeu mais três temporadas e a Telltale começou a lançar uma infinidade de jogos no mesmo estilo, o que acabou alagando o próprio mercado e levou à falência da empresa.

Porém, o que muitos jogadores perceberam ao longo da série é que as decisões feitas geralmente não tinham consequências reais, mas davam a ilusão disso. Eu lembro claramente de ter feito uma escolha que causou a morte de um personagem na primeira temporada, mas ele aparece na segunda temporada de qualquer forma, porque é assim que tem que ser.

De fato, mesmo quando o arbítrio do jogador é um elemento essencial do jogo, é dificílimo desenvolver uma narrativa que realmente se ajuste de acordo com as múltiplas escolhas diferentes que o jogador pode tomar. Nesse sentido, Until Dawn, da Supermassive Games, me impressionou quando joguei. Sem a preocupação de episódios ou temporadas, esse é um jogo em que eu realmente senti o peso das escolhas que eu tomei, mesmo que isso só viesse a ocorrer bem depois. Mas outro aspecto importante é que ele replica a experiência de assistir um filme de terror meio galhofa, onde há tantos sustos quanto gritos de “mas como que esse personagem pode ser tão burro?”. Ou seja, você sente as escolhas mas ainda há um ar de leveza.

Após o sucesso moderado de Until Dawn, publicado pela Sony e exclusivo para PlayStation 4, o estúdio fez uma parceria com a Bandai Namco para produzir a The Dark Pictures Anthology, uma série de jogos multiplataforma no mesmo estilo que Until Dawn, mas curtos e lançados com certa periodicidade. Essa ideia me agrada bastante. Ao invés de aguardar anos e anos para um jogo enorme que causou meses de crunch para os desenvolvedores, podemos ter uma série anual, em que cada jogo constrói a partir do anterior, mas sempre com uma história nova e de duração decente. A série começou no Halloween de 2019 com Man of Medan e, exatamente um ano depois, continuou com Little Hope.

The Dark Pictures

Mecanicamente, Man of Medan Little Hope são praticamente idênticos, e portanto formam uma série apesar de não haver relação narrativa. Em ambos os jogos, acompanhamos um elenco de cinco personagens que são controlados alternativamente. Há a opção de controlá-los todos, ou dividir o controle com amigos. No modo co-op online, os jogadores controlam personagens simultaneamente, mesmo que estejam em cenários diferentes. Já no co-op de sofá, o jogo avisa quando devemos passar o controle e para quem; foi assim que joguei ambos, com minha namorada e mais alguns amigos.

Compartilhar a experiência com os amigos é altamente recomendável aqui, pois quebra a eventual tensão e nos permite dar risadas dos personagens caindo em óbvios clichês de terror. Eu não acho que o jogo chega a ser genuinamente horripilante, mas provoca ocasionais sustos. A parte mais interessante da narrativa é tentar entender o mistério por trás das situações bizarras em que os personagens se encontram, e discutir as hipóteses é outra diversão a se ter com os amigos.

No caso de Little Hope, o elenco consiste de um professor universitário e quatro alunos em uma excursão, mas acabam presos em uma vila chamada Little Hope após um acidente com o ônibus. Cerca de trezentos anos antes, a vila foi palco de uma época de caça a bruxas; pessoas foram afogadas, enforcadas e queimadas acusadas de compactuarem com o demônio. A parte curiosa é que os executados são döppelgangers do elenco principal, versões do século XVII de si próprios. A relação entre esse grupo de personagens e a estranha vila de Little Hope é o que instiga a nossa curiosidade e movimenta a narrativa.

Como jogadores, nós geralmente fazemos uma de três coisas: explorar cenários procurando pistas sobre o que aconteceu e como progredir, tomar decisões em diálogos ou momentos críticos, ou seguir comandos em tela para fugir de algo (QTEs). Tudo isso pode afetar o resultado da história e, inclusive, causar a morte de um personagem. Mas nunca há exatamente um senso de “punição” por permitir uma morte, apenas uma sensação de tragédia que poderia ter sido evitada. A relativamente curta duração do jogo também nos incentiva a retornar e tomar decisões diferentes, para tentar evitar todas as mortes e ter um final diferente. Em adição a isso, a Supermassive já anunciou que, em três meses, será lançada uma atualização que adiciona novas cenas e possibilidades à história, mas, para mim, isso não parece ser suficiente para revisitar o jogo.

Tecnicamente, o jogo evoluiu um pouco em relação aos seus antecessores. Tive a impressão de que a imagem estava um pouco mais nítida, e a taxa de quadros melhor, mas não posso confirmar. A animação facial dos personagens ainda cai no uncanny valley e os controles nem sempre passam a sensação de precisão. Mas o que mais me incomodou, considerando o estilo do jogo, foram os vários cortes que pulam de uma cena a outra, ou mudam o assunto da conversa, de forma que deixa claro a estrutura linear-mas-com-galhos da história. É difícil de explicar em palavras, mas é muito visível quando acontece. Minha sugestão para a Supermassive seria polir um pouco mais a engine para deixar o jogo todo mais consistente e ajudar na suspensão de descrença.

Assim como os outros dois jogos, Little Hope tem um plot twist que define a conclusão da história. Eu preferi esse twist ao de Man of Medan, mas não posso elaborar muito mais do que isso sem entrar no território dos spoilers, que é o que vou fazer na próxima seção.

Zona dos Spoilers

Eu quero discutir aspectos narrativos de Until DawnMan of MedanLittle Hope, mas para fazer isso adequadamente preciso falar sobre spoilers dos três jogos. Para quem quiser preservar a surpresa, sugiro pular para a conclusão ao final do texto.

Os dois jogos The Dark Pictures são marcadamente distintos de Until Dawn em termos de seus plot twists. Este último é marcante pois leva o jogador a acreditar que há algo sobrenatural acontecendo, daí desarma essa ideia como uma pegadinha, para nos surpreender novamente com algo realmente sobrenatural. Isso funciona bem porque o jogo é mais longo e esse primeiro ato, do  “terror de mentirinha”, dá a oportunidade de nos familiarizarmos com as mecânicas e possíveis consequências das decisões, mas com mortes encenadas.

Já em Man of Medan o mistério é fácil de deduzir por parte do jogador desde o começo, mas a ignorância dos personagens ainda os colocam em situações de risco e possível morte. Ao fim do jogo, a causa dos fenômenos aparentemente sobrenaturais é esclarecida, porém as consequências dos erros permanecem. Em Little Hope o mistério não é tão óbvio (eu pensei em várias outras hipóteses para o final), e isso me fez apreciar o twist mais, mas a solução acaba também desfazendo o que aconteceu antes.

Nos dois casos, a sensação é de que o twist é tudo na história, e não tem mais o que dizer além disso, diferentemente de Until Dawn em que o twist é a reviravolta que torna a história ainda mais interessante. O próximo jogo da série, House of Ashes, está previsto para 2021 e já planejo jogá-lo novamente no Halloween, mas o meu medo é que, apesar da história e elenco diferentes, o twist se torne cada vez mais previsível devido a estrutura comum dos jogos.

Há ainda uma metanarrativa se desenvolvendo com o curador, um personagem que quebra a quarta parede e dialoga com o jogador entre os capítulos dos dois jogos. Não é claro aonde essa história vai, mas é de se pensar…

The Dark Pictures: Little Hope mostra que é possível fazer uma série de jogos similares, mas distintos, com um orçamento razoável, mas também exemplifica os desafios dessa forma de desenvolvimento. Empolgante por si só, mas com a sensação de redundância sobre seus antecessores, não deixa de ser uma ótima escolha para uma noite com os amigos.

Leia também

Comentários

[…] (Texto publicado no Neo Fusion, em 18/02/2021, disponível no link: http://54.237.89.239/materia/previa/valheim/) […]

[…] (Texto publicado no Neo Fusion, em 14/01/2021, disponível no link: http://54.237.89.239/materia/analise/tell-me-why/) […]

[…] a alternativa não é descartada. Até mesmo tivemos uma história inédita do marsupial em Crash Bandicoot 4: It’s About Time. Poderíamos ter uma nova versão futuramente de Crash Bash – o party game da franquia […]

[…] mas também foi possível prestigiar títulos à parte dos cartunescos, como, por exemplo, o novo Tony Hawk’s Pro Skater 1+2, que resgatou a alma de um dos jogos de esporte mais icônicos de sua geração. Embora a origem […]

[…] não sendo tão inovador e debatível quanto Her Story, o título certamente conquista um espaço importante no (já não tão popular) gênero dos […]

Breath of the Wild carater família?

wishlistei

Você sabe me falar se compensa eu comprar esse ou posso jogar o original também, eu tenho o original mas não. Joguei nenhum você pode me ajudar nessa Dúvida de 259 reais kkkk

Incluindo a fonte de meu comentário.: http://www.vgchartz.com/gamedb/games.php?name=just+dance+2018&keyword=&console=&region=All&developer=&publisher=&goty_year=&genre=&boxart=Both&banner=Both&ownership=Both&results=50&order=Sales&showtotalsales=0&showtotalsales=1&showpublisher=0&showpublisher=1&showvgchartzscore=0&showvgchartzscore=1&shownasales=0&showdeveloper=0&showcriticscore=0&showcriticscore=1&showpalsales=0&showreleasedate=0&showreleasedate=1&showuserscore=0&showuserscore=1&showjapansales=0&showlastupdate=0&showlastupdate=1&showothersales=0

O que mais impressiona é que a versão mais vendida deste jogo foi a do Nintendo Switch, seguida da fucking versão de Wii! TEM GENTE COMPRANDO JUSTA DANCE PRA WII EM 218! E vendeu bem mais que no One... Dificilmente um JD 2019 vai ficar de fora do velho de guerra da Nintendo!

<3

Este jogo é fantástico! Muito bom evoluir todos os personagens. Os personagens da 2ª geração ficam ainda mais fortes. Celice, filho de Sigurd, torna-se quase um Deus, o deixei com 80 de HP, o máximo, como outros status que ficaram no seu máximo, mais os itens: Silver Sword, Silver Blade, Power Ring, Speed Ring, Defence Ring, deixando o Celice muito forte e resistente.

Obrigado! Sobre suas dúvidas: 1) Eu não consegui confirmação concreta de quem é o CEO atual da Game Freak. O pouco que descobri apontava para o Satoshi, mas é possível que ele já tenha saído sim. 2) O texto foi escrito em dezembro, antes do anúncio de Bayonetta 3. Como a ideia é lançar um listão assim a cada seis meses, acho que não vale o trabalho ficar atualizando a cada anúncio. Mas se houver demanda, posso fazer.

Belo compendium dos estúdios da Nintendo e afiliados! Só tenho duas dúvidas: 1- O Satoshi ainda é CEO da Game Freak? Pensei que ele já tinha se afastado. 2- A Platinum não está fazendo Bayonetta 3 agora?

Que bacana, o jogo parece bem legal. Só não compro porque larguei rápido o último jogo do tipo que peguei (Animal Crossing: New Leaf)

O Zelda mais zeldoso de todos

Esse é jogo é O Zelda?

Valeu :)

Realmente é algo incrível, parece até informação secreta kkkkkkk, ótimo post.

Analise justíssima, parabéns Renan! Na minha opinião, por mais que Pocket Camp seja inegávelmente a experiência mobile da Nintendo mais próxima que tivemos da “versão console”, é desnecessariamente repetitivo, incompleto e enjoativo. Além do gameplay lento (como citado na análise), não existem grandes recompensas pela progressão no jogo além de novos personagens e móveis pra construir. No fim, Pocket Camp é apenas (o pior de) New Leaf adaptado para smartphones, com 10% das funcionalidades e mecânicas free-to-play. Talvez uma atualização dê alguma tapeada na repetitividade excessiva, mas teriam que mudar tanto o jogo que nem sei se vale a pena.

Não joguei esse Zelda ainda, por isso não posso fazer comentários sobre o jogo mas sei que a Nintendo sempre capricha nos seus jogos e usa artificios muito elaborados até para as coisas mais simples, certa vez na internet achei um vídeo relacionando o construtivismo de Vygotsky com o jogo super Mario...por fim estou gostando dessa abordagem mais técnica dos jogos, sai um pouco do padrão da internet

É um openworld, no dois vc começa adolescente e vai envelhecendo, as cicatrizes permanecem, vc pode comprar casa e casar nas diferentes cidades... no terceiro muda mas as decisões são fodas, por exemplo vc procura apoio da população de uma vila pra dar o golpe no seu irmão, então vc promete uma ponte pra cidade, depois do golpe vc tem escolher entre construir a ponte e aumentar o exército da sua nação contra o inimigo do jogo ..daí sua escolha muda tudo

Eu ouvi muito de Fable na época pré-lançamento dele, mas não cheguei a jogar. Tinham muitas promessas nesse sentido mesmo, que você ia passar anos na pele do mesmo aventureiro. Ele chega a ser um openworld? E as escolhas geravam caminhos e quests diferentes?

Um jogo bem interessante mas que muita gente não gosta é Fable, vc ter uma vida, fazer escolhas que vão afetar a história é bem interessante, seria bem legal se em Zelda você pudesse desenvolver uma cidade e se tornar herói/prefeito

Rapaz, que texto. A crítica que você fez à premiação do Uncharted bate no ponto certo. As narrativas mais envolventes do universo dos games, pra mim, foram aquelas que exploraram todo o potencial de interatividade que a mídia propõe. Nada contra Uncharted e eu acho que o jogo é brilhante em vários outros aspectos, mas os exemplos citados no texto falam por si só. Enfim, gostei muito. E o site tá lindo, isso aqui é qualidade pura.

Excelente lista! O Switch é uma awesome little indie machine :)

Faltam 2 horas e estou que nem criança imaginando minha reação se eu ganhar.

Olha... excelente texto. Esse é um problema que eu já vinha discutindo em meus círculos de amizade ha um bom tempo. Isso fica ainda mais evidente quando percebe-se a necessidade das grandes publishers de seguirem tendencias mais lucrativas não afetam apenas o game design em si, mas também as temáticas, narrativas, e até mesmo a direção de arte dos games. Vide a enxurrada de jogos de zumbis que tivemos na geração passada... Por falar em indies, eu vejo muito potencial para que os próximos AAA inovadores saiam deles. O orçamento ainda é um problema, mas financiamento coletivo já é uma realidade. Acredito que equipes extremamente competentes e comprometidas consigam levantar fundos para levar adiante o desenvolvimento de jogos desse nível.

O sorteio vai ser ao vivo via live???

Obrigado Igor! Seja bem-vindo ao Nintendo Fusion :)

Rapaz, que texto foda! Parabéns Renan! Fico cada mais feliz em ser Nintendista em tempos como esse (apesar de ainda não ter um Switch), saber que a Nintendo rema pesado contra essa maré cheia de lixo. Recentemente o designer da BioWare, Manveer Heir (Mass Effect) compartilhou que a EA só tem foco mesmo nas microtransações, que ainda viu gente gastando 15 mil dolares com cards de multiplayer do Mass Effect 3. Pra piorar agora tem o sistema de Loot Box, que está na moda, e a Warner empolgou com o Shadow of Mordor. Loot Box pra fechar campanha ou pra tentar competir online nos jogos, pra mim isso é praticamente o fim. A única esperança que tenho nessa industria que amo tanto são mesmo nos indies, Nintendo e algumas empresas. Espero que a Activision não estrague a Blizzard, pq apesar de Overwatch ter Loot Box, são completamente cosméticos, e eu acho isso bom até, pq jogar pra desbloquear coisas visuais é muito mais interessante e prazeroso que jogar pra tentar a sorte com um item específico pra ser mais competitivo com upgrades no status do personagem.

Não aparece para você no começo do texto? https://uploads.disquscdn.com/images/b809b035a7e4e21875dfe6af44cc2d10dccbe7c3eea556e1be57fe8018d72a32.png

cadê o tal formulário do Gleam? não vi link nenhum no texto... tá mal explicado isso...

Das publicadoras de games, a EA é sem duvidas a pior. Não foi atoa que foi escolhida como a pior empresa americana por dois anos consecutivos. Não quero parecer um hater, mas é essa filosofia de shooters multimilionários, com gráficos de ponta e extorquimento de dinheiro dos consumidores é que vai fazê-los fechar as portas. Isso fica evidente com o “apoio” da empresa ao Switch, não souberam mais uma vez ler o sucesso do console, e repetem os mesmos erros de uma década: investir pesado em gêneros supersaturados. E é interessante notar como o Iwata foi capaz de enxergar uma realidade mais de uma década á sua frente, e feliz que cada vez mais empresas adotam essa estratégia: jogos de menor orçamento e maior foco no público

Agora sim vou ter meu switch o/

Sim!

Qual é a exceção "imperdoável"? Chrono Trigger?

Reativei minha conta só pra promoção kkkk

Cara, não uso Twitter. Até tenho, mas nem lembro senha nem nada. Vamos ver se tenho sorte

Parabéns à todos nessa nova empreitada, o site é promissor!

Acho que o único defeito desse game foi ter requentado muitas fases, poderia ter sido apenas a GHZ, por exemplo. Mas fora isso é impecável.

sera que agora ganho o

Precisa compartilhar no Facebook. Nos outros lugares é opcional.

Eu preciso compartilhar o sorteio pelo facebook? Ou é preciso compartilhar em outro lugar?

Felipe Sagrado escreva-se em tudo para aumenta a change brother!!!!

Você pode participar sim, só não vai poder obter os dois cupons relacionados ao Twitter. :)

Boa tarde. Eu não uso o Twitter, então gostaria de saber se isso impede minha participação ou só diminui minhas chances?

? vou seguir o Renan aqui tbm